Passei boa parte da vida tentando entender — e caber — em espaços que nunca pareceram feitos para mim.

Dentro da própria família, aprendi cedo que ser diferente podia virar motivo de tratamento diferente, de distância, de rejeição velada e desconexão.

Com o tempo, observando o mundo, comecei a perceber que ele está cheio de pessoas como eu. Pessoas que sentem demais, perguntam demais, desconfiam das respostas prontas e demoram a aceitar que a vida precise caber em fórmulas tão pequenas.

No início, essa descoberta me trouxe uma espécie de paz. Depois, veio uma revolta mansa: se havia tantos de nós, por que alguns precisam crescer se sentindo um erro?

Sempre fui questionadora. Insatisfeita, talvez. Desconfiada das verdades herdadas, com pouca paciência para certezas repetidas sem exame. Minha mãe costumava falar: “Tu é parente de São Tomé” — porque, para mim, acreditar nunca foi tão simples quanto repetir. Eu precisava ver. Precisava tocar a origem das coisas.

Gosto da fonte. Da comparação. Do estudo de caso. Gosto de entender de onde uma certeza saiu antes que ela tente se instalar em mim como lei (e olha que sem perceber, muitas se tornaram parte de mim). Aceitar algo apenas porque alguém disse que é assim sempre me causou uma coceira interna.

Por muito tempo, isso também virou rótulo. Chata. Ranzinza. Difícil. Às vezes até vazia — como se o deboche, quando usado por alguém que não sabe mais se defender com delicadeza, fosse ausência de profundidade, e não uma armadura improvisada contra crenças que insistem em nos empurrar goela abaixo.

A escrita nasce desse lugar.

Não como manual de respostas. Não como promessa de transformação rápida. Não como mais uma vitrine de alguém que descobriu o segredo da vida e agora ensina aos outros o caminho.

Eu escrevo porque ainda estou procurando.

Procuro uma forma de existir sem me trair. Procuro palavras para a sensação de olhar ao redor e perceber que o mundo parece funcionar para os outros com uma naturalidade que nunca me foi entregue. Procuro entender por que tantos discursos prometem cura, sucesso, beleza, pertencimento e felicidade como se tudo fosse simples — quando, para algumas pessoas, até levantar da própria confusão já exige coragem.

Aqui tem textos, fragmentos e reflexões sobre a vida, inadequação, identidade, memória, sensibilidade, comportamento humano, solidão, busca interior e essa tentativa diária de não se abandonar no meio do barulho.

Escrevo para quem também sente que não floresce nas mesmas fórmulas.

Para quem já tentou caber em espaços que apertavam por dentro.
Para quem desconfia de respostas fáceis.
Para quem carrega perguntas antigas.
Para quem aprendeu a rir, ironizar ou se calar para não mostrar onde doía.
Para quem ainda acredita que existe uma forma mais verdadeira de viver — mesmo sem saber exatamente qual.

Talvez este lugar não seja sobre chegar a uma conclusão.

Talvez seja só uma casa feita de palavras para quem, como eu, ainda está tentando voltar para si.